brainA equipe do Inovatório fez um treinamento de brainstorming com o designer Eduardo Camargo. Todos os colaboradores aproveitaram e colocaram as técnicas em prática no dia-a-dia de trabalho. O melhor de tudo: ele aceitou o convite para escrever sobre a forma como escolhe a técnica ideal para cada tipo de problema.

 

Muito se fala do “brainstorming” ou “tempestade de ideias” como sendo a maneira de resolver problemas. Em diversas equipes, empresas, setores, departamentos ou projetos, essa palavra mágica é evocada em situações críticas para se fazer uma reunião em busca de um esforço para encontrar uma solução. Será que fazemos mesmo “brainstorming”? E será que é isso que necessitamos para resolver o próximo desafio que se aparece?

Falaremos sobre essa técnica criativa, mas também sobre o que acontece em nossa mente e em nossos grupos de trabalho diante dos desafios criativos que surgem, explicar uma tipologia de problemas, que nos dará o contexto a partir do qual se definirá a ferramenta e dar uma luz sobre como tomar melhores decisões para progredir nesses momentos.

Primeiramente devemos entender que há situações e situações. Em uma emergência de incêndio, ninguém vai convocar um brainstorming ou vai se pôr num estado meditativo a refletir o que seria bom fazer. Estamos diante de um problema de outra classe. Essa diferenciação podemos fazer e chegar em 3 tipos de problemas segundo o processo e resultado: Problemas do tipo lógico ou fechado somente aceitam uma solução verdadeira e exigem um processo específico. Para isso aplicamos nosso lado “racional” e passo-a-passo vamos desenvolvendo segundo um método claro e, quanto melhor aplicamos o método, mais soluções verdadeiras e aceitáveis.

Problemas fechados tem seu próprio algoritmo, são lineares e nos desafiam a “pensar” como bons “computadores”, seguindo um processo e obtendo a resposta. Há problemas na vida e nos trabalhos que são assim e há problemas que não são. Um segundo tipo de problema seria um tipo “misto” que também aceita uma única solução mas pode conter diversas maneiras ou procedimentos para resolver. Por exemplo, se quero me deslocar de onde estou para outro ponto específico na cidade, a única solução aceitável é que eu chegue neste ponto, mas há hoje em dia muitas formas: caminhando, de carro, por uma via ou por outra via.

Muitos processos, entre os quais vou julgar entre meus critérios (por exemplo custo monetário, tempo e conforto), decidir e avançar, podendo encontrar imprevistos no caminho e ainda assim mudar, sem desistir de chegar; aceitável. Ao final posso avaliar se foi eficiente ou não, mas se vai ser efetivo (ou não) será somente se chegou no local determinado. O terceiro tipo de problema é o aberto, que comporta muitos procedimentos, mas também aceita muitas soluções. Por exemplo, qual seria a maneira “correta” de pintar um quadro que vai decorar minha sala? Não há, porque há infinitas soluções aceitáveis e também uma sequência variada de pinceladas que me levarão a um resultado plausível. Podemos falar em termos de aplicação de técnicas de pintura, eu posso sim ser avaliado se apliquei bem alguma técnica específica que estou aprendendo em minhas aulas de pintura. Mas não existe somente uma pintura com suas cores específicas que poderão decorar minha sala de maneira que me agrade. São muitas opções, é um problema aberto ou complexo.

Devo dizer que este último, é o cenário ideal para a aplicação da técnica do brainstorming e muitas técnicas variadas dele para encontrar uma solução ajustável ou aceitável. Podemos ter um marco referencial de critérios e parâmetros dentro dos quais a solução é aceitável, mas ainda seguir com uma infinidade de aspectos que, se formos detalhar, se torna ineficiente e nada econômico.

Qual é a empresa correta em sua organização e resultados para servir pão para as pessoas? Não há uma, há várias. Qual layout é o correto para nossa sala de reunião e linha de produção? Há vários. Qual é a forma, curva, tonalidade, mecanismo correto para esse design? Há vários. Com que palavras corretamente vou expressar meus sentimentos nesta carta? Várias possibilidades e soluções. Que brincadeira é a correta para meu filho neste próximo domingo? Ainda que possa ter seus critérios e limites, papai, vai encontrar seu filho criando uma infinidade de soluções que você não é capaz de imaginar. São todas situações-problema do tipo aberto, muitas soluções possíveis.

Obviamente na vida encontramos diversas opiniões acerca de qual categoria se aplica a cada tipo de situação. Há os que creem por exemplo, que o matrimônio (em termos de valores e princípios) é como uma franquia (há um modelo replicável que funciona, com papéis definidos e flexibilidade dentro de limites claros, assemelhando-se então ao problema fechado ou misto), outros o imaginam como um problema aberto.

Podemos categorizar problemas como fechados e seus subproblemas como mistos ou abertos, ou vice-versa. Tomando o exemplo anterior, num matrimônio de duas pessoas que creem que há um modelo, podem obviamente improvisar em muitas coisas. Ou ainda em um quadro que eu esteja pintando, posso sim, considerar correto pintar somente o quadro e não avançar com a pintura para a parede do vizinho. Ou mesmo em um problema de matemática, posso empregar diferentes instrumentos ou técnicas para escrever as equações.

Ao arriscar convocar um brainstorming, sempre vale uma consideração como esta: Eu como propositor permito-me encontrar soluções distintas àquela que já estou pensando e quero? Se tenho critérios claros e tomei decisões de como solucionar, já cheguei na solução, ou muito mais próximo dela, falta só desenvolver. Neste caso, pode ser um problema fechado ou misto (pois só vou aceitar a minha solução) ou o caso de redefinir a proposta do brainstorming com os limites e critérios já estabelecidos pela solução que já quero. Por exemplo, já tenho em mente o desenho de minha marca como quero e não sou flexível, basta então, materializá-lo; é mais uma questão de técnica de expressão do que geração de ideias; se já tenho em mente o que quero, traduzo em critérios e deixo clara quais são as variáveis dentro das quais sou flexível: se quero um layout específico em minha revista mas quero conhecer com que classe de papel ou suporte ficaria melhor e ainda qual tipologia seria mais adequada, essa é a proposta para um brainstorming (que nesse caso sugeriria outra técnica como a Matriz Morfológica).

Nas situações projetuais nas quais enfrentamos um “branco” ou “bloqueio” criativo podemos sim estar diante de uma necessidade de aplicar uma ferramenta criativa para realizar um movimento divergente (brainstorming, derivados ou outros). Mas não necessariamente! Pode ser somente estresse.

Pode ser que sua mente tenha passado do limite que suportaria para processar informações dessa maneira que está fazendo e precise descansar, fazer outra coisa, entrar em outro modo cerebral, para aí então voltar e avançar. Há muitos fatores estressantes internos e externos para cada pessoa e cada dia, seria improdutivo analisar aqui, a questão é que somos seres humanos limitados e sim, chegamos no limite do saudável e muitas vezes passamos dele chegando ao estresse negativo, ao Burnout e aí estaremos vivendo a situação de um incêndio (Saia correndo para um hospital meu amigo!).

Considerando que estamos em tempo hábil e não há pânico, gostaria de brevemente mencionar Sheley Carson, PhD em psicologia com pesquisas em criatividade, psicopatologia e resiliência e seu livro Cérebro Criativo. Ela apresenta no livro um conteúdo fantástico acerca de qual área do cérebro se ativa (diagnosticado com aqueles equipamentos neurológicos high-tech) em cada situação-problema. A partir disso ela agrupou os padrões orgânicos em 7 modos cerebrais que usamos diariamente para lidar com os problemas e encontrar as soluções. Recomendo a leitura mas aqui gostaria somente enfatizar que para cada tipo de problema e subproblema que mencionamos há uma abordagem que vai se ajustar melhor em cada momento. E considerando que somos distintos, há pessoas que se desenvolvem mais facilmente em alguns modos cerebrais e outros menos e isso devemos considerar sempre quando nos deparamos com problemas criativos que estamos enfrentando sozinhos (num projeto ou trabalho, por exemplo). Pode ser o momento de descansar a área que está necessitando fazendo temporariamente outro trabalho ou o momento de abordar a questão de outra maneira.

Para nomear e aplicar: há os modos Absorver (Muito bom para conhecer o problema antes de buscar soluções); Transformar (Amo esse dos artistas); Conectar, Corrente (Aqui o brainstorming em grupo pega fogo!), Visualizar (inovador solitário existe); Razão, Avaliar (esses dois trabalham muito bem. Mas mais depois do brainstorming e menos durante porque são um pouco “chatos” e preferem problemas fechados e mistos).

O mesmo “branco criativo” que acontece no indivíduo, num grupo criativo de trabalho, família, amigos, também acontecem situações que “bloqueiam” a criatividade, a fluidez, a tomada de decisões, etc. Também podemos mencionar aqui especialistas na dinâmica dos grupos humanos e, entre eles, chamo ao palco Pichón-Rivière e Wilfred Bion que falam de grupo operativo, suas estruturas e movimentos (a dinâmica) internos. Se há pessoas com um objetivo em comum, ou seja, um grupo de pessoas, o conquistar esse objetivo ou avançar nele será possível para o grupo na medida em que se renova, se adapta, se ajusta em sua forma de atuar.

O que foi solução em algum momento no passado, da vida deste grupo, projeto ou organização, será problema e carga no futuro no momento em que o contexto mude. É necessário e vital que as toxinas sejam eliminadas, que o lixo e as coisas velhas sejam tiradas, que o passado seja perdoado, que as equipes sejam renovadas, que os treinamentos sejam frequentes, que o planejamento estratégico seja revisto com ousadia e coragem, que a mente seja renovada para experimentar tudo que é bom, perfeito e agradável, que a maneira de um grupo de pessoas se organizar e atuar mude de acordo com sua necessidade e objetivo. Carregar status fica cada vez mais pesado. Não só o passado vai tirar o grupo do foco criativo, mas também as diferentes situações presentes que sim poderão surgir. Em equipes de trabalho, alguém pode não estar bem de saúde, algum familiar pode estar com sérios problemas, a chuva pode ter estressado o outro antes de dormir, um novo membro pode representar uma ameaça, uma nova ideia, e até uma inovação pode ser sabotada pelo grupo que ama demais o que faz, como faz, como sempre fez, etc. Para todas as situações devemos estar flexíveis e vivos. Um bloqueio muitas vezes é uma oportunidade para mudar o que há tempos necessita mudar.

Conhecendo que não são todas as situações que demandam um “brainstorming” e que há variantes internas (pessoais e grupais) e externas (tipologia de problemas) que devem ser gerenciadas para fazer uso eficiente do capital criativo de uma pessoa e organização (assim como gerenciamos outros recursos), nos resta somente responder, o que é brainstorming?

Alex Faickney Osborn é o pai dessa “criança” nascida na década de 1920. Mais uma vez não entrarei em pormenores mas cabe dizer que nem tudo que chamamos de brainstorming é o Brainstorming. Perto de completar um século, a história conta que Alex identificou que grupos poderiam ser mais criativos que pessoas trabalhando individualmente, passou a estudar isso e compreendeu como ser eficaz e eficiente nisso. Há detalhes em suas publicações e podemos resumir a estrutura de um grupo de brainstorming em alguns aspectos:

  • É um grupo que vai buscar quantidade (se crê que quando se tem muitas ideias se é mais fácil encontrar uma boa ideia (problema do tipo aberto));
  • São pessoas que vão interagir e combinar as “suas” ideias sem egoísmo para torná-las do grupo (cada um imagina uma “bola” diferente, de tênis, futebol, um círculo, etc. de acordo com seu quase infinito repertório. Combinar isso de sua mente com o repertório do outro, gerará uma infinidade de combinações. O grupo ganha, as ideias são do grupo e não do indivíduo);
  • São pessoas dispostas a aceitar ideias loucas (será mais fácil depois, numa etapa de julgar com o modo Razão e Avaliar, decidir qual é a melhor e se necessário diminuir a loucura e trazer a ideia para a “terra” do que querer fazer o processo contrário. O propósito é investir tempo e energia para fazer acontecer justamente o processo divergente que gerará possibilidades inimagináveis);
  • É um grupo que não vai se ocupar de julgar ou criticar (o cérebro se colocará ativo no brainstorming se deixarmos do lado de fora da sala o nosso lado critico, pessimista, punitivo. Esse lado é quem vai avaliar as ideias depois do brainstorming, não durante);
  • É um grupo que vai se beneficiar se há um facilitador (guardião do processo e que vai estimular para manter o foco na questão chave) e que possivelmente demande que os “chefes” saiam da sala para conservar a não-crítica e o não-julgamento desta atividade que pode ser de menos de uma hora de trabalho.

É uma atividade divertida e desestressante em grupo mas os princípios podem ser adaptados para tornar eficiente um processo individual. Um indicador de um brainstorming bem feito em seu Processo, é a diversão (nos sentimos similares à uma criança no domingo se divertindo dentro dos limites que papai estabeleceu, altamente produtiva , criativa, orientada), um indicador de Resultado é a quantidade de ideias, de Desempenho, seria a quantidade de ideias por tempo-pessoa, de Qualidade, o quão divergente (potencial de inovação) e quão focadas e orientadas à solução (eficiência econômica da atividade) estão. Para todos, um bom grupo, uma boa definição de foco e um bom facilitador, ajudam.

Experimente, pode ser que em menos de 1 hora encontre a solução que todos andam buscando.

 

¹Eduardo Gomes Camargo, designer, facilitador pós-graduado em dinâmica de grupos, co-fundador da ong Aliança Empreendedora (organização social para inclusão econômica que já beneficiou mais de 50 mil microempreendedores em todo o Brasil), cristão, ex-missionário-pastor e agora empreendedor da Tikkun Olam – Colaboração Eclesiástica para Inovação Social.

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